"Somos prisioneiros de nós mesmos. Nunca se equeça disso, e de que não há fuga
possível."

(Lao Tse, Tao-te-ching, 600 a.C.)

quinta-feira, 17 de julho de 2008

...blog idiota que ninguém lê...

sábado, 28 de junho de 2008

...Lentes de contato na psicina...

Caminhava firme, passos largos, de quem sabia que não devia parar. Andava olhando os carros, contando as placas, contando os carros, contando o que não contara: andava. Com uma tenacidade insólita, como quem pula no mar, do píer, sem saber nadar. E enquanto andava olhava tudo. Olhava com um olhar perquiridor. Buscando, onde quer que fosse, a ínfima fenda por onde escaparia.
O coração às vezes batia mais pesado, quase saía pela boca. E nessa hora pisava macio, um tanto mais, ao menos. E nessa hora o olhar esboçava o cansaço. Mas não poderia nunca parar. Era muito perigoso. Se parasse, alguém poderia notar que a vontade era maior, quase uma necessidade.
Nessas horas, ele lembrava do trecho de um livro que lera certa vez, “e há dias e dias sinto meu coração como um sabiá na gaiola com a porta aberta”. Nunca vira um sabiá, mas, em sua casa, havia uma graúna que conseguia abrir a própria gaiola, e, de gaiola aberta, olhava para o mundo com um certo olhar de peixe, agitando a cabeça para um lado e para o outro. Ela não podia sair, era morrer, suicidar-se. E ela sabia disso. Assim, ele sabia que não podia demonstrar sua tão-querência.
Mas a vida aparecia com a porta aberta. E ele caminhava pela avenida alucinada, no começo da tarde, com o sol a agulhar-lhe os olhos míopes, pelo caminho inverso, lado oposto.
Querer era perder. E dessa vez ele precisava demais. Procurara demais. Esperara demais. Mas o mundo tinha muita gente e ele tinha pouca sorte. Sempre alguém melhor, falando mais alto, altivamente. Sempre alguém – aparentemente – maior. Por isso ele tinha de mascarar. Não podia se importar, não podia temer. Era importante. Demais... Ninguém podia notar.
Tentou rezar, pedir calma, pedir uma graça, talvez fazer uma – outra – promessa. Mas será que, se Deus soubesse, não seria Ele, onipotente, mais um opositor? Baixou a cabeça...
E seguia procurando pedras para rolar avenida acima...
E seguia, mergulhado no ar, como quem procura lentes de contato em uma piscina...
E tremia, já, tentando segurar o pensamento dentro da gaiola aberta...
Perdia-se no sorriso amarelo, no refrigerante sem gosto, nos passos perdidos, que voltavam a bater forte no chão – talvez pelo peso do tempo, que retinha forte os ponteiros... Até que cansou e dependurou, pelas orelhas, a cabeça sobre as mãos, sentando num banco de praça... Tentava tapar os ouvidos pra que não lhe pulasse aos olhos a sombra do desejo? A idealização? Que mal haveria em pensar, pensou. Nenhum. Mais mal faria esperar que o pensamento chegasse concreto. E a inevitável sorridência que isso dá, quebrada logo em seguida.
E esse fim de tarde que não chega.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

...Moça dormindo sob a marquise...

Total solidão,
Alheia aos carros passando,
sonhando, em vão...

sábado, 7 de junho de 2008

...Diálogo (nº I)...


(foto: Saulo de Azevedo)





"O homem, que, nesta terra miserável,/mora, entre feras, sente inevitável/necessidade de também ser fera. "

(Augusto dos Anjos)


Eu tenho medo do mundo. E eu tenho vergonha disso. De dizer que, de forma corrosiva, eu tenho medo do mundo. Eu tenho medo de andar pela calçada e, de repente, ser assaltado. Ou, o que é pior, não ter nenhum pertence valioso ou quantia em dinheiro suficiente para ‘agraciar’ meu agressor, e, assim, despertar nele uma frustração que culminará na minha morte, por faca, tiro, soco, pedra ou afim... enfim, qualquer coisa que sirva para matar.
A lógica do mundo não cabe mais na minha cabeça. E eu tenho medo. Tenho medo, agora, de não ter um trocado qualquer, viavelmente disponível, para entregar de mão aberta a um mendigo qualquer no meio da rua, pois, caso não tenha, ele pode me empurrar graciosamente, como numa dança holywoodiana, para debaixo de um ônibus, em plena avenida treze de maio.
Eu tenho medo de sair à rua à noite.
Eu tenho medo do pedreiro que vem aumentar a altura do muro. Como tenho do rapaz que vem fazer a leitura do medidor do consumo de energia. Do instalador da cerca elétrica, do adestrador do cão de guarda, que comprei para me proteger, e do qual tenho medo também.
Eu não sei mais quem é quem ou quê.
Eu tenho medo de dar um sinal de luz para o carro da frente. Eu tenho medo de parar no sinal de trânsito. De reduzir a velocidade ao passar sobre a lombada, de buzinar. Eu não sei quem tem uma arma. Eu não sei nem quem tem uma chave de fenda.
É ridículo. Não se pode mais chamar nem a polícia. É capaz de eles te torturarem por sete horas e meia também. E, já pensou, vai que depois disso você precisa de um atendimento médico na rede pública? Eu tenho medo...
Não consigo não ter medo, principalmente por saber que você – e provavelmente eu também – vai morrer de câncer com seu Iphone no bolso, enquanto um rapaz tem um ataque epilético no meio da rua, a duas calçadas da sua casa. E eu não tenho coragem de ajudar.
Mas seria epilepsia ou fome?
Eu não sei. Tive medo de descobrir.

E eu nem tenho um Iphone...

Eu tenho medo porque é tudo muito estranho. Certo, quase bizarro. Um pai como principal suspeito, ou, não sei ao certo (e penso que é isso seja a intenção da mídia), culpado, juntamente com a esposa, de matar a própria filha. E o noticiário me mostra ainda uma menina de, se não me engano, 8 meses (e eu queria que você estivesse lendo errado) que foi violentada pelo tio; e outra, de 10 anos, também violentada por um tio que também era o padrinho.
E eu, mais que ninguém, queria que você estivesse lendo errado. Eu queria ter escrito errado. Queria nem ter sabido de tudo isso, se fosse o caso... queria, apenas...
Eu queria olhar o céu e me encantar, passivamente, com o azul. Me encantar sem o questionamento constante, queimando minha alma, sobre a existência de Deus. Será? Pense comigo: dentro desse contexto absurdamente ilógico, a existência de Deus, onipresente, onisciente, onipresente, é aquilo que há de mais necessário; existir em um mundo como o nosso sem a esperança de uma justiça divina é que há demais assustador em tudo isso. Contudo, a cada esquina que eu dobro, a idéia dessa mão condutora, clemente, bondosa e justa fica cada vez mais dispersa e distante. E isso também me dá medo...
E, sendo assim, eu tenho medo. Medo por meus pais, medo por minha garota – e, às vezes, mais por ela – medo, por todas as pessoas de bem que conheço, ou não, que saem todos os dias, todas as manhãs, com uma agenda preestabelecida em sua cabeça, para aquele dia, que pode, simplesmente, não terminar. Viramos espécies de bonecos de vidro, que podem partir a qualquer momento, virar cacos no asfalto quente. E o ciclo natural das coisas, aquele velho “nascer, crescer, reproduzir, morrer”, foi alterado, e, nesse caso, a ordem dos fatores pode alterar o produto – se ele existir até o final da equação.
Eu tenho medo do mundo simplesmente porque, hoje, ter um curso superior e falar duas línguas não quer dizer que você consiga um bom emprego. E há milhares de pessoas com curso superior falando duas línguas, ou mais. O que elas vão fazer para ganhar dinheiro? Vender a alma ao diabo?
E tudo isso porque o ser humano não sabe a hora de parar – assim também como eu não sei a hora de parar de escrever. Nada é suficiente para nós. Nada.
E eu tenho medo. Justamente por ser o homem um animal, e por animais, quando com medo, agirem de forma assustadora...

quarta-feira, 21 de maio de 2008

...O Dia dos namorados...

Ele, quase morto.
Violada por três homens,
chorava calada.

sábado, 10 de maio de 2008

...Sem Exceção...

Domingo normal: quente. Seguidamente de um sorvete, ela tomou o ônibus e apeou-se a um banco dos de trás, próximo ao cobrador. Partindo, então, de uma região do centro da cidade, a condução tomava o rumo, e ela, distraída como sempre, deixara-se esquecer o pensamento, ainda, dentro da sala de cinema.
A noite era, já, madura, umas seis e trinta, sete horas. Ia tranqüila em seu devaneio, quando ouviu o primeiro baque. Antes que terminasse de enlaçar a bolsa ao ombro, viu-se cercada por uma malta de torcedores organizados pós derrota. Deixou-se, então, encurralar.
A distância do ponto de descida encurtava à medida que aumentava o odor de álcool, e ao passo no qual esse se misturava ao de suor e testosterona – era, agora, a única presença feminina na condução. Os machos rasgavam-na com os olhos. Enfim, deu o inevitável sinal: ia descer. Levantou-se, e todos, sem exceção, naquela massa continua de transpiração lasciva, olharam-na sedentos...

terça-feira, 6 de maio de 2008

...Assustadora Certeza...

(postado a primeira vez no blog CasaFechada, no dia 12 de novembro de 2005)




Foi-se embora. Sim, foi-se e levou consigo tudo – que já não era muito – o que trouxera e roubou muito do que nunca fora seu. Foi-se. Devagar, sem hesitar, deslizando por entre a vastidão de todas aquelas mesas com a saia a varrer-lhe todos os vestígios e rastros: foi-se...Ele continuou ali, sentado. Sem saber pra onde olhar mastigava todos os pensamentos de tudo o que não havia dito; sem saber pra onde olhar pôs-se a segui-la com os olhos que agora refletiam todas aquelas luzes, principalmente as que incidiam por sobre ela. Era estranho como seu andar diáfano causava ainda o mesmo desejo doído... Foi então que percebeu que já podia contar mesas demais. Foi então que o olhar daquele rapaz, que vestia camisa de time de futebol, para as nádegas dela fê-lo notar que, como sempre, ela não havia olhado para trás – em nenhum momento. E fê-lo notar também que dessa vez era diferente, dessa vez ele queria – quase que por necessidade – esse tal olhar que nunca tivera nem haveria de ter.Foi-se – ela. E dessa vez deixou-o a esperar. Esperá-la virar o pescoço – apenas isso. Esperar para ver aqueles dois grandes olhos negros de pálpebras inchadas olharem-no mais uma vez – a última: a merecida última vez.Foi-se e deixou-o esperando enquanto sumia por entre mesas e cadeiras e pessoas numa tarde azul de sábado. Sumiu sem dizer adeus e sem deixá-lo dizer que não queria que ela fosse. Deixou-o. Deixou-o, assim como às profundas marcas que lhe deixara a moerem-no a alma. Deixou-o – como disse que nunca faria. Deixou-lhe a pesar nas costas todo o ano que passara. E deixou-o tão pesado que teve de reaprender a andar para levantar-se daquela mesa. Deixou-o – sem saber – com ânsia de vômito e com a assustadora certeza de uma vida inteira pela frente.